sábado, 1 de outubro de 2011

Com que cara eu fiquei?


Lá vinha eu, pela rua Paulo Barreto, ainda constrangido emocionalmente, afetado pela arte que me pegou de surpresa — por mais que eu soubesse de antemão onde estava me metendo — quando, já quase na Voluntários da Pátria, alguma coisa me chamou a atenção, à minha esquerda (algo que mais senti do que vi) e me fez olhar em sua direção. Como eu caminhava devagar, e tenho, na minha cabeça, um mudador de tempo, ou de velocidade, não sei, o que eu vi se passou muito lentamente, para a minha percepção ferida, alvejada com talento, mas sem dó, nem piedade, pelos jovens artistas que participaram da Grande Final do II Festival de Cenas Curtas, ali no Centro Cultural Solar de Botafogo, de onde eu saíra havia apenas alguns minutos.

Olhando agora para de onde vinha aquela radiação toda (aí já na mais completa câmera lenta), dei com uma moça, sentada numa cadeira, que me olhava intensamente. Um olhar e um sorriso diferentes, iluminados, que me incluíam, mas transcendiam-me também, e abarcavam inteiramente o mundo, sem que me abandonassem. Aquilo durou alguns longos, eternos segundos e causou-me um bem-estar inexprimível. Como se me consolasse do tanto que quis chorar (mas não podia!), ao identificar-me, surpreso, com o texto brilhante de uma das cenas concorrentes — de poucas horas atrás, no Festival — que falava da força e da intensidade de dez minutos de amor e êxtase, diante das energias desperdiçadas dos “pra sempre” hipnoticamente esgotados. Como se me libertasse da necessidade e da obrigação de ser lógico, de ser coerente, e das expectativas libertariamente frustradas na cena da mãe que não reconhece a filha, no momento em que, poucos segundos antes, eu poderia jurar ser o mais feliz de ambas. Como no presente de poder rir um pouco de mim mesmo, ao rir dos outros e de sua história de divisão entre ousadia e medo, sem que aquilo me fizesse temer o momento, ou que me obrigasse a transgredir.

Sem parar de caminhar, notei, então, que, ali, sentada sobre a cadeira, na Paulo Barreto, aquela moça voltava o seu olhar e o seu sorriso para as próprias pernas, e que sobre elas havia uma criança, um bebê, que ela continuou a mirar com aquele sorriso iluminado e extático. “Não era pra mim esse olhar”, foi a primeira coisa que pensei, “ela nem me viu”. E achei graça daquilo. Todo aquele amor, aquele enlevo que ela sentia pelo bebê que tinha sobre as pernas, iluminou-a, e ao olhar para mim, atraída talvez pelo simples movimento de um passante, que a distraíra por instantes, traduziu tudo naquela luz que me atingiu, que me tomou por inteiro, e me transformou por momentos, talvez. Ou para sempre.

Segui o meu destino (agora me lembro! Eu me dirigia ao mercado pra comprar algum vinho), examinando os arredores do velho Botafogo de sempre, mas dando a tudo uma nova cor, e um novo significado que eu não tinha a menor intenção em definir. Comprei o vinho e voltei finalmente à casa, preparando-me para tomar uma ducha antes de fazer o café.

"(...) o presente de poder rir um pouco de mim mesmo, ao rir dos outros
e de sua história de divisão entre ousadia e medo (...)"
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Ingrid Klug - Melhor atriz, e melhor cena,
no II Festival de Cenas Curtas, com "Encontro Duplo"
(http://www.youtube.com/watch?v=jSJREOILNf4)


Foi então que me dei conta: é claro que foi para mim aquele olhar. Foi um olhar sem maiores compromissos ou intenções, sim, mas para além do que ela mesma pudesse desejar, foi alguma coisa que me abençoou com a luz que lhe vinha de toda aquela graça sentida sobre as pernas. Um olhar que de mim voou ao mundo e o percorreu num instante, até que ela voltasse novamente a mirar a fonte de toda aquela iluminação.

Perguntei-me, então, o que havia eu dado a ela. Como a olhei, e o que de mim — transtornado pela arte dos jovens atores e roteiristas do Festival de Cenas Curtas — pude passar, quer tenha ela percebido ou não? Com que cara, enfim, eu fiquei? Jamais poderei responder. Nunca saberei o que passei para ela, naquele momento. Não houve tempo. Porque por mais que um espelho mágico me pudesse mostrar a mim mesmo por inteiro e por dentro, tornar visível a cara do que sinto, era a minha dor e a minha alegria, vividas na arte de pouco antes, que devem ter-me tornado visível para ela. Mas já irremediavelmente transformado, um instante depois — sem que ela ou eu pudéssemos perceber — por tudo aquilo com que ela própria me tocara.




















3 comentários:

  1. LucieneOct 2, 2011 05:29 AM
    Momentos únicos deliciosamente vividos e sensivelmente contados.
    Adoro ler você, Marco, sempre!

    Luciene
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  2. Sallorenzo Luz ImagemOct 2, 2011 06:45 AM
    Marcão
    Esse momento é um sopro de vida, que o menino lá de cima manda. O tempo, o espaço, tudo se dissolve na emoção sentida.
    PJ
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  3. Ísis KrakatoaOct 2, 2011 04:15 PM
    Gostei do foco que o testo deu à relatividade do tempo.. como por vezes segundos se tornam momentos mágicos que nos tiram da realidade temporal. =)
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